Santa Maria ganhou espaço entre as regiões mais conhecidas de Brasília ao combinar crescimento urbano, expansão econômica e uma identidade própria construída ao longo de pouco mais de três décadas. Localizada na porção sul do Distrito Federal, a Região Administrativa XIII passou por uma transformação acelerada: deixou de ser uma área rural vinculada ao Gama e se tornou um território com bairros consolidados, comércio local, equipamentos públicos, áreas militares, atividades industriais e conexão direta com municípios do Entorno.
A mudança não ocorreu de forma repentina. A formação de Santa Maria está ligada à expansão populacional do Distrito Federal, à necessidade de moradia para famílias de baixa renda e à reorganização administrativa promovida pelo Governo do Distrito Federal a partir dos anos 1990. Hoje, a região reúne mais de 120 mil moradores, segundo a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios Ampliada de 2024, e ocupa posição relevante na dinâmica urbana e econômica da capital. (pdad.ipe.df.gov.br)
De território rural a Região Administrativa
Antes da criação da região administrativa, o território de Santa Maria fazia parte da área rural do Gama. A ocupação mais recente está relacionada ao Programa de Assentamento do Governo do Distrito Federal, criado em 1990 para atender à demanda habitacional de famílias de baixa renda e transferir ocupações irregulares espalhadas por diferentes áreas do DF.
O processo também tem raízes mais antigas. De acordo com levantamento do Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal, a área pertenceu ao território de Goiás e já era ocupada desde o século XVIII. As referências históricas citam a formação do Arraial de Santa Luzia, atual Luziânia, em 1746, além da ocupação de áreas próximas aos rios Santa Maria, Alagados, Saia Velha e Ponte Alta entre 1763 e 1778. (pdad.ipe.df.gov.br)
O nome Santa Maria está relacionado à hidrografia local e à antiga Fazenda Santa Maria. A presença de núcleos rurais, como Alagados, Visconde de Inhaúma e Água Quente, também ajudou a formar a paisagem e a organização territorial que antecederam a urbanização da região.
A criação oficial da RA XIII
Santa Maria foi autorizada como Região Administrativa pela Lei nº 348, de 4 de novembro de 1992. A criação foi regulamentada pelo Decreto nº 14.604, de 10 de fevereiro de 1993, que instituiu oficialmente a RA XIII. A data passou a ser considerada o aniversário da região administrativa. (sinj.df.gov.br)
A ocupação urbana começou pelas quadras 200 e pelas quadras 308, 309 e 310. Nos anos seguintes, o parcelamento foi sendo consolidado entre os ribeirões Alagado e Santa Maria. O projeto urbanístico se organizou em torno das avenidas Alagado e Santa Maria, que permanecem entre os principais eixos de circulação, comércio e serviços da cidade. (pdad.ipe.df.gov.br)
A nova região administrativa incorporou áreas distintas, como a Marinha, Saia Velha e o Polo JK. Também passou a abrigar estruturas militares ligadas ao Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle do Tráfego Aéreo e à Área Alfa do Ministério da Marinha, o que ampliou a diversidade de usos do território.
Crescimento populacional e perfil dos moradores
O crescimento de Santa Maria acompanhou a expansão da população do Distrito Federal e a oferta de lotes e moradias em áreas planejadas. A PDAD-A 2024 estimou a população urbana da região em 121.635 pessoas. A idade média dos moradores era de 33,1 anos, e 52,5% da população era composta por pessoas do sexo feminino. (pdad.ipe.df.gov.br)
Os dados também mostram a presença de diferentes trajetórias migratórias. Cerca de 61,4% dos moradores declararam ter nascido no Distrito Federal. Entre os residentes que nasceram fora do DF, o Nordeste aparece como a principal região de origem, responsável por 63,4% desse grupo. O Maranhão foi a unidade da Federação mais citada entre os estados de nascimento dos moradores não naturais do Distrito Federal. (pdad.ipe.df.gov.br)
Esse perfil ajuda a explicar a diversidade cultural de Santa Maria. A região foi formada por famílias que chegaram ao Distrito Federal em diferentes períodos, por trabalhadores ligados à construção civil, servidores públicos, empregados do setor privado, pequenos empreendedores e moradores transferidos de outras áreas do território brasiliense.
O papel do Polo JK na economia
Um dos fatores que contribuíram para colocar Santa Maria em posição estratégica foi a criação do Polo de Desenvolvimento Econômico Juscelino Kubitschek, conhecido como Polo JK. Localizado nas proximidades da BR-040, o polo concentra empresas ligadas principalmente à indústria e à logística.
A localização aproxima Santa Maria da Saída Sul e dos municípios limítrofes da área metropolitana de Brasília. O corredor rodoviário funciona como ligação entre cidades do Entorno, como Valparaíso de Goiás e outras localidades próximas, e a área central do Distrito Federal. Segundo o estudo do IPEDF, essa função de passagem e distribuição reforça a importância do Polo JK para a base econômica do DF. (pdad.ipe.df.gov.br)
A atividade econômica, contudo, não se resume às empresas instaladas no polo. Santa Maria também desenvolveu um comércio local ativo, com estabelecimentos distribuídos principalmente nos eixos das avenidas Alagado e Santa Maria. A região conta ainda com a Feira Permanente de Santa Maria e a Feira do Produtor, que ampliam as opções de compra e fortalecem a circulação de renda dentro da própria cidade. (pdad.ipe.df.gov.br)
Uma região ainda conectada ao Plano Piloto
Apesar do crescimento de suas atividades econômicas, Santa Maria mantém forte ligação com outras regiões do Distrito Federal. A concentração de empregos no Plano Piloto faz com que parte significativa dos moradores realize deslocamentos diários para trabalhar.
Na PDAD-A 2024, o Plano Piloto foi apontado como o principal local de trabalho entre os moradores ocupados pesquisados, com 41,1% das respostas. O setor privado foi a posição ocupacional mais frequente, com 63,3% dos entrevistados nessa categoria. O ônibus apareceu como principal meio de transporte utilizado entre a casa e o trabalho, citado por 59,6% dos respondentes. (pdad.ipe.df.gov.br)
A região possui dois terminais rodoviários, sendo um na Quadra 401 e outro associado à integração do BRT na Estação Santos Dumont. A estrutura de transporte ajuda a conectar Santa Maria ao Gama, ao Plano Piloto e a municípios do Entorno, embora os deslocamentos diários continuem sendo uma das principais características da vida urbana local. (pdad.ipe.df.gov.br)
Serviços públicos e consolidação urbana
O processo de consolidação de Santa Maria também envolveu a ampliação de serviços públicos. A região possui unidades básicas de saúde e o Hospital Regional de Santa Maria, que atende moradores da própria RA e de áreas próximas. Na segurança pública, estão presentes estruturas da Polícia Civil, da Polícia Militar, do Corpo de Bombeiros e da Polícia Rodoviária Federal. (pdad.ipe.df.gov.br)
Na educação, a pesquisa de 2024 indicou que 72,1% das pessoas entre 4 e 24 anos frequentavam creche, escola ou instituição de ensino superior. Entre os moradores com cinco anos ou mais, 96,6% declararam saber ler e escrever. Os números ajudam a dimensionar o perfil jovem e a demanda por serviços educacionais em uma região que continua crescendo. (pdad.ipe.df.gov.br)
A expansão habitacional também modificou a paisagem. A maior parte dos domicílios era formada por casas, e 66,6% dos moradores declararam viver em imóveis próprios já pagos. Ao mesmo tempo, a urbanização trouxe desafios comuns a regiões periféricas e de crescimento acelerado, como a necessidade de melhorar a mobilidade, aproximar empregos dos locais de moradia e ampliar a oferta de serviços públicos.
Cultura, memória e identidade local
O destaque de Santa Maria não se limita aos indicadores demográficos ou econômicos. A região consolidou manifestações culturais, festas comunitárias e eventos que ajudam a fortalecer o sentimento de pertencimento dos moradores. A programação local inclui apresentações musicais, danças, atividades religiosas e eventos promovidos por associações e grupos da própria cidade.
Entre as referências simbólicas está o Monumento Solarius, conhecido popularmente como Chifrudo. A obra é apresentada por órgãos públicos como um presente do governo francês ao Brasil e uma representação da migração dos candangos que participaram da construção de Brasília. O monumento se tornou um dos elementos mais reconhecidos da paisagem de Santa Maria. (gov.br)
A região também reúne áreas de interesse ambiental e de lazer, como a Cachoeira do Tororó, citada entre os principais atrativos naturais do Distrito Federal. A presença desses espaços amplia a percepção de que Santa Maria não é apenas uma área residencial ou industrial, mas um território com patrimônio natural, memória histórica e vida cultural própria. (gov.br)
O que explica o destaque de Santa Maria
O crescimento de Santa Maria pode ser entendido pela combinação de quatro fatores. O primeiro é a localização no sul do Distrito Federal, próxima à BR-040 e às cidades do Entorno. O segundo é a formação urbana planejada a partir de programas habitacionais. O terceiro é a presença do Polo JK, que ampliou o potencial industrial e logístico da região. O quarto é a consolidação de uma população numerosa, com comércio, serviços e manifestações culturais próprias.
Esse conjunto transformou uma antiga área rural do Gama em uma das regiões administrativas mais populosas e estratégicas do Distrito Federal. A história de Santa Maria, portanto, é também a história da expansão de Brasília para além do Plano Piloto e da formação de novas centralidades urbanas.
Mais de 30 anos depois da criação da RA XIII, Santa Maria continua em processo de transformação. O desafio é fazer com que o crescimento econômico e populacional seja acompanhado por melhorias na mobilidade, na infraestrutura, na oferta de empregos e na qualidade dos serviços públicos. A trajetória da região mostra que o desenvolvimento de Brasília ocorre em diferentes pontos do território — e que Santa Maria passou a ocupar um lugar cada vez mais visível nessa dinâmica.








