O Paranoá é uma das regiões de Brasília cuja história está diretamente ligada à construção da capital federal. Localizada na porção leste do Distrito Federal, a Região Administrativa se desenvolveu a partir do acampamento formado para abrigar trabalhadores responsáveis pelas obras da Barragem do Rio Paranoá, estrutura que deu origem ao lago que hoje integra a paisagem de Brasília.
Mais de seis décadas depois do início da construção da barragem, o Paranoá mantém marcas desse período em sua paisagem, em áreas de memória e na relação cotidiana dos moradores com o Lago Paranoá. A região também reúne espaços de proteção ambiental, trechos de Cerrado e pontos que permitem observar a transformação do território desde os primeiros anos da nova capital.
O lago previsto no planejamento de Brasília
A ideia de formar um lago na área onde Brasília seria construída antecede a inauguração da cidade. Registros da Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil, associados ao trabalho do botânico e naturalista Auguste François Marie Glaziou, mencionam a existência de uma área de vale com condições favoráveis à formação de um espelho d’água.
O projeto ganhou forma no planejamento da nova capital. A construção de uma barragem no Rio Paranoá foi incluída entre as exigências do concurso do Plano Piloto, realizado em 1957, e passou a fazer parte da concepção urbana de Brasília. O lago tinha funções paisagísticas, de lazer e também relacionadas ao fornecimento de energia para a cidade.
De acordo com registros do Arquivo Público do Distrito Federal, a obra da barragem começou no fim de 1957. O projeto envolveu o desvio do Rio Paranoá e o represamento de cursos d’água que contribuíam para a formação do reservatório, como os ribeirões Torto, Bananal, Gama e Riacho Fundo.
Da barragem ao surgimento da Vila Paranoá
Para executar a obra, a Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil, a Novacap, instalou um acampamento destinado a operários, engenheiros e demais trabalhadores. O núcleo começou a ser formado em 1957, em uma área que posteriormente seria atingida pelo enchimento do lago.
Com o avanço das obras, o acampamento precisou ser deslocado para terrenos mais altos. A ocupação cresceu à medida que trabalhadores chegavam acompanhados de suas famílias. Depois da inauguração de Brasília, em 1960, parte dos moradores permaneceu no local porque ainda era necessário concluir etapas da barragem e da usina hidrelétrica.
O antigo acampamento ficou conhecido como Vila Paranoá. Segundo levantamento da Companhia de Planejamento do Distrito Federal, a comunidade já reunia cerca de 3 mil pessoas e aproximadamente 800 barracos nos primeiros anos de funcionamento da nova capital. A expansão do núcleo transformou a área em um dos principais assentamentos formados durante a construção de Brasília.
Reconhecimento administrativo e crescimento da comunidade
A Região Administrativa do Paranoá foi criada oficialmente pela Lei nº 4.545, de 10 de dezembro de 1964, que organizou o Distrito Federal em regiões administrativas. Os limites da área foram estabelecidos no mesmo ano por decreto do governo distrital.
O crescimento da comunidade continuou nas décadas seguintes. Em 1980, o Paranoá já era apontado como uma das maiores áreas de ocupação espontânea do Distrito Federal. A consolidação da cidade ocorreu após um processo de mobilização dos moradores, que reivindicavam a permanência no território e melhores condições de infraestrutura.
A fixação da população, no entanto, não ocorreu exatamente no mesmo lugar do acampamento original. O deslocamento alterou a configuração urbana da região, mas não apagou as referências do antigo núcleo de trabalhadores. Parte dessa memória permanece associada à área próxima à barragem e às construções que sobreviveram ao processo de transferência.
Memória da construção de Brasília
O Parque Vivencial do Paranoá é um dos locais relacionados à preservação da memória da antiga Vila Paranoá. A área reúne vegetação, árvores frutíferas plantadas por famílias que viveram no acampamento e elementos construídos durante os primeiros anos da capital.
Entre as referências históricas está a Igreja São Geraldo. As primeiras celebrações religiosas da comunidade eram realizadas em um barracão. A construção da igreja começou depois de uma mobilização dos moradores e foi concluída em 1962, dois anos após a inauguração oficial de Brasília.
A preservação do parque foi associada à valorização da história dos pioneiros que participaram da formação da barragem e da cidade. O espaço funciona, assim, como testemunho de uma etapa em que os acampamentos de trabalhadores desempenharam papel central na ocupação do território do Distrito Federal.
A história do Paranoá também revela que a construção de Brasília não se resumiu ao Plano Piloto e aos monumentos projetados por Oscar Niemeyer. A capital foi erguida por milhares de trabalhadores, muitos dos quais permaneceram no Distrito Federal e formaram comunidades que se tornaram parte permanente da cidade.
Paisagens próximas ao Lago Paranoá
O Lago Paranoá é um dos principais elementos da paisagem de Brasília. Formado após a conclusão da barragem, no fim de 1959, o reservatório passou a exercer função importante na composição visual da capital e na criação de áreas de lazer próximas à água.
Na área do Paranoá, a barragem é um ponto de referência para compreender a origem do lago. A estrutura também permite observar a transição entre o ambiente urbano, as margens do reservatório e a vegetação típica do Cerrado. O cenário muda de acordo com a época do ano: durante o período chuvoso, a vegetação ganha volume e coloração mais intensa; na estação seca, o clima transforma a paisagem e evidencia os tons amarelados do bioma.
A região está inserida na área de influência da Área de Proteção Ambiental do Lago Paranoá, unidade criada em 1989 para contribuir com a proteção dos recursos naturais, das margens do lago e de áreas ambientais associadas. A APA alcança diferentes regiões administrativas do Distrito Federal, entre elas Paranoá, Lago Sul, Lago Norte e Brasília.
Além da água e do Cerrado, a paisagem inclui áreas de preservação, trilhas, espaços de convivência e pontos de observação. Esses ambientes ajudam a manter uma relação entre a memória histórica da região e as características naturais que existiam antes da formação do lago.
O entorno da barragem e os espaços ambientais
Próximo à barragem está o Parque Ecológico Dom Bosco, localizado na margem do Lago Paranoá, na Região Administrativa do Lago Sul. O parque oferece trilhas em áreas de Cerrado e vistas para o lago. Também abriga a Ermida Dom Bosco, um dos monumentos associados à paisagem turística de Brasília.
Embora esteja em outra região administrativa, o parque faz parte do conjunto de áreas que ajudam a interpretar o entorno do reservatório e a conexão entre Paranoá, a barragem e as margens do Lago Paranoá. A proximidade entre esses espaços permite perceber como o lago se relaciona com áreas urbanizadas, unidades de conservação e equipamentos de visitação.
O próprio território do Paranoá possui unidades de conservação e áreas de interesse ambiental. Estudos do Brasília Ambiental destacam a importância de áreas próximas à barragem, tanto pela presença de vegetação e fauna nativas quanto pelo valor histórico atribuído ao antigo acampamento.
Um território marcado por mudanças
A formação do Lago Paranoá modificou de maneira profunda a paisagem da região. O represamento alterou o curso do Rio Paranoá, inundou áreas da planície e deslocou o acampamento que havia sido instalado para apoiar as obras. A transformação foi planejada como parte do projeto da nova capital, mas também produziu efeitos sobre os espaços ocupados anteriormente por moradores e trabalhadores.
O Paranoá surgiu, portanto, em meio a uma combinação de engenharia, urbanismo, migração e organização comunitária. A cidade não foi apenas consequência da construção da barragem: sua formação resultou da permanência dos trabalhadores, do crescimento das famílias e da reivindicação por reconhecimento e infraestrutura.
Essa trajetória diferencia o Paranoá de outras áreas de Brasília. A região reúne, no mesmo território, a memória dos canteiros de obras, os vestígios da antiga vila, a presença do Lago Paranoá e as áreas naturais do Cerrado. A história local é inseparável da história da capital, mas também possui uma identidade própria construída por seus moradores.
História e paisagem no presente
Atualmente, o Paranoá pode ser compreendido a partir de duas dimensões complementares. De um lado, está a memória dos trabalhadores que participaram da construção da barragem e permaneceram no Distrito Federal. De outro, está a paisagem formada pelo lago, pela vegetação e pelas áreas protegidas que cercam a região.
A preservação desses elementos depende do equilíbrio entre uso urbano, acesso público, proteção ambiental e valorização do patrimônio histórico. A presença do Lago Paranoá não deve ser vista apenas como um cenário, mas como resultado de uma obra que alterou a geografia local e influenciou o desenvolvimento de Brasília.
Conhecer o Paranoá é reconhecer uma parte da capital que combina história social, engenharia e natureza. Entre a antiga Vila Paranoá, a Barragem do Rio Paranoá e as margens do lago, a região conserva referências de diferentes momentos da formação do Distrito Federal e mostra como a paisagem de Brasília foi construída ao longo do tempo.








