sexta-feira, 23 de outubro de 2026
Brasil

Desinformação sobre religiões afro-brasileiras é citada em análise eleitoral do Idafro

Minidossiê compara propostas de Lula e Flávio Bolsonaro sobre racismo, segurança pública e liberdade religiosa; publicação também menciona política para povos de terreiro e 2.774 denúncias ao Disque 100.
Desinformação sobre religiões afro-brasileiras é citada em análise eleitoral do Idafro
Foto distribuída pela Agência Brasil Direitos Humanos

Conteúdos falsos relacionados a religiões de matriz africana e propostas para o enfrentamento do racismo aparecem entre os temas reunidos pelo Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras (Idafro) em uma análise sobre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). O minidossiê compara ações, declarações e programas de governo dos candidatos antes da votação de domingo (25).

Intitulada Igualdade Racial e Racismo Religioso nas Ações e Posições de Lula e Flávio, a publicação foi lançada neste mês. Segundo o Idafro, o levantamento consultou sites do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), além de notícias de jornal. As fontes estão reunidas na íntegra do documento, de acordo com o instituto.

Racismo e propostas de governo

Na comparação feita pelo Idafro, Lula reconhece a discriminação racial como um dos fatores relacionados às desigualdades. O programa associado ao candidato apresenta propostas para aperfeiçoar políticas de ações afirmativas, regularizar territórios quilombolas e demarcar terras indígenas.

A análise também cita medidas voltadas à proteção da juventude negra contra a violência e à redução de homicídios. Em relação a Flávio Bolsonaro, o instituto afirma que declarações e o programa de governo negam a existência do racismo. A publicação diz ainda que o plano não menciona termos como “cota”, “racismo”, “negro”, “preto”, “pardo”, “inclusão racial”, “terreiro”, “matriz africana”, “laico”, “intolerância” ou “discriminação”.

Segurança pública e reconhecimento facial

Outro ponto destacado é a proposta de Flávio Bolsonaro de criar um sistema de reconhecimento facial. O Idafro relaciona a medida a um risco de impacto racial e afirma que pesquisas brasileiras e estrangeiras apontam taxas de erro maiores na identificação de rostos pretos e pardos.

Segundo a entidade, esse tipo de falha pode resultar em prisões equivocadas e abordagens injustas. O programa de Lula, por sua vez, é descrito no minidossiê como voltado à proteção da juventude negra contra a violência e à adoção de ações para reduzir homicídios.

Povos de terreiro e desinformação

O instituto cita como exemplo de medidas relacionadas à liberdade religiosa a criação, em 2024, do grupo responsável por elaborar a política nacional para povos de terreiro. Conforme a análise, a política reforçou direitos como a inviolabilidade dos terreiros, que, segundo o texto, muitas vezes são invadidos e depredados, além de estimular a preservação do patrimônio imaterial.

O minidossiê também recupera um episódio ocorrido na véspera do primeiro turno, quando Lula e a primeira-dama Janja Lula da Silva foram alvo de conteúdos falsos. Entre os materiais mencionados estão imagens geradas por inteligência artificial que simulavam uma oferenda no Palácio do Planalto, associações de Janja a rituais satânicos e informações falsas sobre cobrança de impostos de igrejas.

O deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), vice-presidente na chapa de Flávio, é citado por divulgar um vídeo de Lula em um terreiro e questionar a fé do presidente. De acordo com o dossiê, Lula recebia uma homenagem no momento registrado. Para o Idafro, o uso estigmatizante dessas peças atinge povos de terreiro mesmo quando o alvo declarado é um candidato.

Denúncias de intolerância

O Disque Direitos Humanos (Disque 100) registrou 2.774 denúncias de intolerância religiosa entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, conforme o levantamento. O serviço é vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, funciona 24 horas e oferece atendimento gratuito e imediato.

A campanha de Flávio Bolsonaro foi procurada para se manifestar sobre a análise. Até a divulgação consultada, não havia sido incluído novo posicionamento.

Fonte: Agência Brasil Direitos Humanos.

Foto distribuída pela Agência Brasil Direitos Humanos